Os artistas brutos criam por necessidade de se expressar. São pessoas, muitas vezes com doenças mentais, que criam uma arte diferente daquela que é seguida e adotada por convenção coletiva.

Jean Dubuffet, em 1945, criou o termo francês Art Brut(Arte Bruta, em português) para classificar o estilo de arte criado por pessoas de fora do meio artístico, que não tinham nenhum estudo artístico ou pré referências estilísticas, mas que faziam arte como forma de um tratamento psiquiátrico ou mesmo como forma de expressão.

Neste grupo, faziam parte prisioneiros, pacientes de hospitais psiquiátricos ou até mesmo crianças, que utilizavam todos os tipos de materiais para criar suas obras. A coleção de arte bruta de Dubuffet teve início quando realizou visitas a hospitais psiquiátricos na Suíça em 1945. Um ponto importante para notar é que este período cobre justamente o pós-guerra e que um estado de niilismo influenciava fortemente a europa e também o resto do mundo.

Jean Dubuffet – Imagem de Google Arts & Culture

Compagnie de l’Art Brut

Cerca de 3 anos depois, em 1948, Dubuffet criou a “Compagnie de l’Art Brut”, juntamente com artistas reconhecidos, como Michel Tapié, Jean Paulhan, Charles Ratton, Henri-Pierre Roché e o mais conhecido deles, André Breton. O conceito era reunir, como ele mesmo disse “artistas autodidatas, marginais com um espírito rebelde, impermeável às normas e aos valores coletivos, que criam sem preocupação. Não há necessidade de reconhecimento ou de aprovação, eles projetam um mundo para seu próprio uso. Além de serem livres de influências da tradição artística”. Dubuffet via nesses criadores a forma mais pura de arte.

Em 1976, ele criou o museu Collection de L’Art Brut, em Lausane, na Suíça, com obras de artistas como Carlo Zinelli, Aloïse, Adolf Wolfli, e Henry Darger. É o maior museu de Arte Bruta em todo o mundo.

Jean Dubuffet – Imagem: Artchive

Outsider Art

A “Art Brut” também pode ser chamada de “Outsider Arte”, termo criado por Roger Cardinal, em 1972. O termo pode ser mais completo que Arte Bruta, já que no francês, onde o termo foi originalmente criado, a palavra “Brut” significa “crua”, ao contrário do português onde significa “bruto” com um significado mais relacionado ao violento, mais depreciativo e distante do original.

Além do aspecto artístico do movimento, a arte criada dentro dos hospitais psiquiátricos ou mesmo nas prisões funcionam como uma forma de catarse para que as pessoas possam lidar de uma forma melhor com problemas ou traumas pessoais.

Sam Simon Rodia – Imagem: SpiritoMartinez

Uma luta contra o "Establishment"

Jean Dubuffet argumentava que os artistas franceses na década de 1940 seguiam as tendências da moda a fim de participar do sistema de arte e serem reconhecidos pelos intelectuais. A posição destes intelectuais e artistas eram totalmente passivas, já que sempre se colocavam à disposição da burguesia e de quem tinha poder aquisitivo, usufruindo dos benefícios dessas relações, com a ambição de um dia serem considerados a própria classe dominante.

Desta forma, de acordo com Dubuffet, esses artistas também contavam com o auxílio das instituicões comuns da sociedade, como a igreja, o estado e a polícia. O autor ainda acreditava que a cultura ocupava um papel que antes era da Igreja, como detentora de uma grande narrativa de controle social.

"Os burgueses provincianos orgulham-se dos seus caldeirões Luís XIV, Luís XV, Luís XVI. Empenham-se em distinguir uns dos outros, soltam altos gritos quando a seda do espaldar não é da época; estão convencidos de que se revelam assim como verdadeiros artistas. Sabem reconhecer as janelas de travessas, o ogival antigo e o princípio da Renascença. Estão persuadidos de que essa bela sabedoria legitima a preservação de sua casta"

Jean Dubuffet
Houghton, detail from The Risen Lord (29th June, 1864, VSU) – Imagem: Madeleine Merald Thiele

A Arte Bruta estava distante disso tudo, seus artistas sem ligação com sociedade e de interpretações antropológicas, políticas e sociais. O que resultava em uma arte pura, criada pelo consciente e inconsciente de cada um, revelando estruturas mentais e formas de ver o mundo completamente próprias. Poderia também ser considerada uma oposição à arte culta ou cultural.

Segundo Dubuffet, a loucura poderia ser vista como uma maneira de negar o discurso cultural, e assim, o indivíduo não se importaria com o filtro social ou cultural imposto ao longo das civilizações, criando sem preocupação com os diversos aspectos culturais.

“Não se consideram artistas e não designam sua produção como arte”

Jean Dubuffet
Friedrich Schröder Sonnenstern – Imagens: Grisebach
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Créditos:
Referências: 1. A ARTE BRUTA DE JEAN DUBUFFET – www.revistas.udesc.br / Palíndromo, v. 11, n. 25, p. 120-130, set – dez 2019 / Thays Alves Costa.
2. Dubuffet Fondation
Imagens:
1. (Capa) Carlo Zinelli – abcd/ArtBrut – https://abcd-artbrut.net/en/collection/zinelli-carlo/
2. Jean Dubuffet – Google Arts & Culture – https://artsandculture.google.com/asset/ppiniriste/hgEq7mGylCX9-w
3. Jean Dubuffet – Artchive – http://artchive.com/artchive/D/dubuffet.html
4. Sam Simon Rodia – https://spiritofmartinez.com/simon-rodia
5. Houghton, detail from The Risen Lord (29th June, 1864, VSU) – https://madeleineemeraldthiele.wordpress.com/2016/09/10/georgiana-houghton-spirit-drawings/
6. Friedrich Schröder Sonnenstern – Imagem: Grisebach – https://www.grisebach.com/ /